Um pouco mais sobre a autora


       Por que sou poeta? Porque eu nasci poeta. Sempre gostei de inventar histórias. Mudar o final dos livros. Ler? Li muito na minha infância. Muito. Passei um ano sem recreio na escola. Passava esse tempo na biblioteca. Até me proibirem. Precisava comer. Mal sabiam eles. A leitura também alimenta. Lia e ainda leio tudo - leio, principalmente, pessoas. Tenho uma vontade incontrolável de ler tudo e todos.
Na escola, escrevia peças de teatro. Atuava. Gostava do palco. Em 1985, aos 10 anos, a poesia se apresentou. Minha professora pediu que eu escrevesse poemas para o concurso da escola.
Foi um encontro difícil. Não queria escrever. Queria fazer teatro. Comecei a filosofar –– o que aquela “maldita” – foi uma raiva absurda -  poesia merecia. E fui escrevendo. Muitas folhas. Pensava ser aquilo uma grande inutilidade. Pensei que ficaria livre do ofício.
E pro meu azar – ou sorte -  a professora gostou. Indagou e exclamou ao mesmo tempo: Você escreveu isso?! Pensei – aliviada – ela não gostou. Ótimo! Voltaremos ao teatro.
A professora pulou, exclamou e mostrou para a escola toda. Ganhei o concurso. No susto. Não compreendia as muitas exclamações. Os elogios. Era boa a sensação. Ganhar sempre é bom. Mas havia algo ruim.
Demorei. Mas entendi. A concorrência. A inveja. O descaso. Não gostei dessa sensação. Aos poucos, percebi que para escrever precisava estar triste, indignada. Precisava ter saudade. Ter sonhos.
Percebi um mundo sensível e dolorido. E não quis. Fugi. Às vezes, voltava a esse mundo obscuro. E já sentia uma vontade enorme de saltar, acabar logo com aquilo.
E o tempo foi passando. E tudo ficava mais claro. Sim, eu era poeta. Sabia. Mas não queria passar a minha vida sofrendo e sonhando. Não queria sentir uma saudade eterna do que nem conhecia.
Escrevi, por muito tempo, escondida. Escondia os poemas em vários cadernos. Alguns escapavam das folhas. E fui vivendo. Fiz meu primeiro pacto com a poesia. Prometi a ela que só faria um livro quando conseguisse escrever sem sofrer.
Em vão. Parei de escrever. Mas ela aparecia. Escrevia algumas coisas -  é preciso saber que minha relação com meus poemas é extremamente complicada. Tem dias que quero acabar com tudo.
Fiz meu segundo pacto. Não queria mais ser poeta. Queria uma vida normal. Sem esta sensibilidade doída. Fiquei uns anos livre dela. É certo que em alguns dias fazia uns rabiscos, mas logo os apagava.
Até o dia que percebi que não havia como fugir. Decidi, aos 36 anos, que seria poeta – por inteiro. Decidi porque a sensibilidade estava me consumindo.
A poesia me alivia. Hoje sei que sou esta mistura complexa. É difícil. Muito difícil viver em dois mundos simultaneamente. Mas, imensamente, prazeroso. Gigantescamente sublime. Dolorido, sim. Solitário, sim. Não escrevo para fim algum. Escrevo para dar vida ao que silencio.


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