Posted on terça-feira, 9 de dezembro de 2014 · Leave a Comment
Por que sou poeta?
Porque eu nasci poeta. Sempre gostei de inventar histórias. Mudar o final dos
livros. Ler? Li muito na minha infância. Muito. Passei um ano sem recreio na
escola. Passava esse tempo na biblioteca. Até me proibirem. Precisava comer.
Mal sabiam eles. A leitura também alimenta. Lia e ainda leio tudo - leio,
principalmente, pessoas. Tenho uma vontade incontrolável de ler tudo e todos.
Na escola, escrevia
peças de teatro. Atuava. Gostava do palco. Em 1985, aos 10 anos, a poesia se
apresentou. Minha professora pediu que eu escrevesse poemas para o concurso da
escola.
Foi um encontro
difícil. Não queria escrever. Queria fazer teatro. Comecei a filosofar –– o que
aquela “maldita” – foi uma raiva absurda - poesia merecia. E fui
escrevendo. Muitas folhas. Pensava ser aquilo uma grande inutilidade. Pensei
que ficaria livre do ofício.
E pro meu azar – ou
sorte - a professora gostou. Indagou e exclamou ao mesmo tempo: Você
escreveu isso?! Pensei – aliviada – ela não gostou. Ótimo! Voltaremos ao
teatro.
A professora pulou,
exclamou e mostrou para a escola toda. Ganhei o concurso. No susto. Não
compreendia as muitas exclamações. Os elogios. Era boa a sensação. Ganhar
sempre é bom. Mas havia algo ruim.
Demorei. Mas
entendi. A concorrência. A inveja. O descaso. Não gostei dessa sensação. Aos
poucos, percebi que para escrever precisava estar triste, indignada. Precisava
ter saudade. Ter sonhos.
Percebi um mundo
sensível e dolorido. E não quis. Fugi. Às vezes, voltava a esse mundo obscuro.
E já sentia uma vontade enorme de saltar, acabar logo com aquilo.
E o tempo foi
passando. E tudo ficava mais claro. Sim, eu era poeta. Sabia. Mas não queria
passar a minha vida sofrendo e sonhando. Não queria sentir uma saudade eterna
do que nem conhecia.
Escrevi, por muito
tempo, escondida. Escondia os poemas em vários cadernos. Alguns escapavam das
folhas. E fui vivendo. Fiz meu primeiro pacto com a poesia. Prometi a ela que
só faria um livro quando conseguisse escrever sem sofrer.
Em vão. Parei de
escrever. Mas ela aparecia. Escrevia algumas coisas - é preciso saber que
minha relação com meus poemas é extremamente complicada. Tem dias que quero
acabar com tudo.
Fiz meu segundo
pacto. Não queria mais ser poeta. Queria uma vida normal. Sem esta
sensibilidade doída. Fiquei uns anos livre dela. É certo que em alguns dias
fazia uns rabiscos, mas logo os apagava.
Até o dia que
percebi que não havia como fugir. Decidi, aos 36 anos, que seria poeta – por
inteiro. Decidi porque a sensibilidade estava me consumindo.
A poesia me alivia.
Hoje sei que sou esta mistura complexa. É difícil. Muito difícil viver em dois
mundos simultaneamente. Mas, imensamente, prazeroso. Gigantescamente sublime.
Dolorido, sim. Solitário, sim. Não escrevo para fim algum. Escrevo para dar
vida ao que silencio.
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